domingo, maio 02, 2010

I love New York

"Nova York, cidade que é um caldeirão de emoções, funciona como um coração para o nosso mundo, um coração que bate forte e acelerado

São muito significativos aqueles adesivos com a frase I love New York, nos quais a palavra love é substituída por um coração. Porque Nova York, cidade que é um caldeirão de emoções, funciona como um coração para o nosso mundo, um coração que bate forte e acelerado. É uma coisa ligada à história moderna: no século 19, fazer a América, como se dizia então, passou a ser o sonho dos pobres em muitos continentes. Europeus, asiáticos, latino-americanos acorriam em massa para uma cidade. Como dizem os versos de Emma Lazarus, inscritos no pedestal da Estátua da Liberdade: Tragam a mim os exauridos, os pobres, as confusas massas ansiando por respirar liberdade. Apesar da intolerância, do racismo, da caça às bruxas do período McCarthy, os Estados Unidos eram a terra da liberdade, o lugar onde qualquer um poderia perseguir o seu sonho. Muitos o fizeram com sucesso, e o resultado foi uma gigantesca metrópole. Gigantesca e rica: Nova York é o paraíso do consumo, um lugar onde as pessoas compram furiosamente. Durante duas semanas, tentei adquirir o iPad, o novo leitor óptico da Apple. Inútil, estava sold out, esgotado em todos os lugares. E era missão impossível encontrar um ingresso para a exposição sobre Tim Burton, o diretor de Alice no País das Maravilhas no Museu de Arte Moderna (onde, contudo, vimos uma fantástica mostra do fotógrafo Cartier Bresson).

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Nas ruas de Nova York ouvem-se todos os idiomas possíveis e imagináveis, mas o português agora está tendo uma posição de destaque. Os brasileiros vão em massa à Big Apple, catapultados pelo real forte e pelo acessível preço das passagens aéreas. E aí, dê-lhe compras. Encontrei um carioca que já tinha comprado quarenta – isto mesmo, quarenta – camisas, e queria mais. Em várias lojas onde entrei, a música ambiental era, não por coincidência, brasileira, uma homenagem aos novos consumidores. O Brasil está em alta nos Estados Unidos; na área da literatura, comprova-o o interesse por Clarice Lispector, sobre quem Benjamin Moser escreveu uma recente e muito bem-sucedida biografia.

Voltando ao consumo: nem só de compras vive o viajante. Existem dezenas de peças em cartaz, desde musicais clássicos como West Side Story até obras recentes. E filme que não acaba mais, a ponto de a gente não saber por onde começar. Sem falar nas fantásticas livrarias, e museus, que às vezes surpreendem: existe, na Quinta Avenida, um Museu do Sexo. A gente imediatamente pensa em sacanagem, e de fato, sacanagem lá não falta, mas a par disso há exposições muito boas: a que vi contava a história da camisinha, desde a época em que era feita de tripa de animais até os nossos dias.

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Por causa da mistura étnica, os nova-iorquinos são diferentes de outros americanos, mais abertos, mais exuberantes, mais dispostos a ajudar o turista. Mas atrás disso ainda estão os resíduos de autoritarismo e de violência que, devidamente usados por mandatários como Teddy Roosevelt e os Bush, fizeram dos Estados Unidos a polícia do mundo. Lembrei-me disso na Penn Station, onde iríamos tomar o trem para Providence, Rhode Island. Eu já estava com os tickets, mas não sabia qual era o “track”, a linha do trem. Havia um policial no saguão e resolvi perguntar a ele. Aproximei-me, e para minha surpresa, o homem soltou um grito: “Back up!”, “Recue!”, acrescentando: “Você está muito perto”. Não preciso dizer que imediatamente me senti um perigoso terrorista, pronto a detonar uma granada ou a disparar uma metralhadora. Mesmo assim, e a uma distância que o homem certamente considerava segura (uns dois metros) perguntei sobre o “track”. Ele rosnou uma resposta qualquer, deu as costas e foi embora.

Não pude deixar de pensar que, se dependesse de pessoas assim, não apenas não existiriam os versos de Emma Lazarus, como a própria Estátua da Liberdade jamais seria construída. Felizmente, porém, ele era uma exceção, e a frase “I love New York” pode continuar a ser dita. De preferência, claro, com dólares no bolso."


Texto de Moacyr Scliar, publicado na Zero Hora de 2 de maio de 2010.